Tuesday, August 08, 2006

O Irã, a Bomba e o Mundo (III)

A atenção mundial se concentra nos enfrentamentos no Líbano e na Faixa de Gaza, mas o contexto insiste em apontar inevitavelmente para o Irã. Infelizmente, a diplomacia mirada na questão iraniana é constantemente superada pelos acontecimentos. Enquanto chovem bombas nas cidades libanesas e israelenses e Israel retoma partes de Gaza, a conexão mental com o veio mestre iraniano se vela.

Até aqui os Seis têm sido vagos a respeito de sua resposta a uma recusa iraniana em negociar, exceto por ameaças inespecíficas de sanções via Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas se um impasse entre a omissão fatigada dos Seis e a injúria sarcástica do presidente iraniano conduzir a uma aquiescência de fato ao programa nuclear do Irã, as perspectivas de uma ordem internacional multilateral se reduzirão por toda parte. Se os membros permanentes do Conselho de Segurança, mais a Alemanha, forem incapazes de conjuntamente realizar os objetivos aos quais se comprometeram publicamente, todo país, especialmente entre os componentes dos Seis, enfrentará ameaças crescentes, sejam pressão doméstica aumentada de grupos islâmicos radicais, atos terroristas ou as quase inevitáveis conflagrações detonadas pela proliferação de armas de destruição em massa.
A analogia com tal desastre não é Munique, quando as democracias cederam a parte da Tchecoslováquia de fala alemã a Hitler, mas a resposta quando Mussolini invadiu a Abissínia. Em Munique, as democracias pensaram que as exigências de Hitler estavam essencialmente justificadas pelo princípio da autodeterminação; a elas repugnaram mais os métodos do ditador nazista. Na crise abissínia a natureza do desafio era incontroversa. Por ampla maioria, a Liga das Nações votou no sentido de tratar a aventura italiana como agressão e de impor sanções. Mas os votantes recuaram diante das conseqüências de sua decisão e rejeitaram um embargo de petróleo, que a Itália teria sido incapaz de vencer e a teria posto de joelhos. A Liga jamais se recuperou do débâcle. Se os foros hexa-nacionais negociando com o Irã e a Coréia do Norte sofrerem fracassos comparáveis, a conseqüência será um mundo de disseminada proliferação, não controlada nem por diretrizes emanadas de princípios nem por instituições em funcionamento.
Um Irã moderno, forte e pacífico poderia se tornar um pilar de estabilidade e progresso na região. Isso não pode acontecer a não ser que os líderes do Irã decidam se representam uma causa ou uma nação - se sua motivação básica é o estabelecimento de uma cruzada ou a cooperação internacional. O papel da diplomacia dos Seis deveria ser forçar o Irã a confrontar esta escolha.
A diplomacia nunca opera em um vácuo. Ela persuade não pela eloqüênca de seus praticantes mas pela montagem de uma balança de incentivos e riscos. O famoso ditado de Clausewitz de que a guerra é a continuação da diplomacia por outros meios define tanto o desafio quanto os limites da diplomacia. A guerra pode impor a submissão; a diplomacia precisa evocar o consenso. O sucesso militar capacita o vitorioso na guerra a dar a receita, pelo menos durante um período interino. O sucesso diplomático ocorre quando as partes principais se encontram substancialmente satisfeitas; ele cria - ou deveria lutar para criar - propósitos comuns, pelo menos em relação ao âmago da negociação; de outra forma nenhum acordo demora muito tempo. O risco da guerra reside em exceder os limites objetivos; a perdição da diplomacia em trocar o propósito pelo processo. A diplomacia não deveria ser confundida com loquacidade. Não é um exercício de oratória e sim conceitual. Quando ela posa para audiências domésticas, os desafios radicais são mais encorajados do que ultrapassados.

É freqüentemente afirmado que o que é preciso em relação ao Irã é uma diplomacia comparável àquela que, na década de 1970, fez a China se mover da hostilidade para a cooperação com os Estados Unidos. Mas a China não foi persuadida por uma diplomacia habilidosa a entrar nesse processo. Na realidade, foi trazida, por uma década de conflito em escalada com a União Soviética, para uma convicção de que a ameaça à sua segurança vinha menos da América capitalista do que da crescente concentração de forças soviéticas em suas fronteiras meridionais. As refregas entre as forças militares chinesas e soviéticas ao longo do rio Ussuri aceleraram a retirada de Pequim da aliança soviética.
A contribuição da diplomacia americana foi compreender o significado desses acontecimentos para agir com base nesse conhecimento. A administração Nixon não convenceu à China de que ela precisava modificar suas prioridades. Seu papel foi convencê-la de que a implementação de suas necessidades estratégicas era seguro e realçaria suas perspectivas de longo prazo. Fez isso pela concentração do diálogo diplomático nos fundamentos geopolíticos objetivos, ao mesmo tempo em que mantinha alguns itens contenciosos em latência. O Comunicado de Xangai de 1972, o primeiro comunicado sino-americano, simbolizou este processo. Contrariamente ao costume estabelecido, listou uma série de desacordos que permaneciam como um prelúdio para o objetivo chave comum de impedir aspirações hegemônicas de terceiros não nomeados - claramente visando a União Soviética.


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