Monday, August 07, 2006

O Irã, a Bomba e o Mundo (II)

Trata-se do problema imposto pelo governo do Irã ao establishment diplomático e de defesa do Ocidente, antes da eclosão da presente conflagração no Oriente Médio, por sua controvertida decisão de continuar seu programa de enriquecimento de urânio "para fins pacíficos" (algo espantoso para um grande exportador de petróleo), combatido pelos governos ocidentais, pela Rússia e pelo Japão. O problema é que a tecnologia pesquisada também pode capacitar seu detentor a produzir artefatos nucleares, o que se choca com a necessidade do TNP de coibir a proliferação de armas atômicas.
O Irã tem declarado que não vai se curvar à imposição ocidental e que continuará com seus estudos e suas pesquisas nesse campo, por considerá-los vitais para o desenvolvimento tecnológico do país. Acrescenta que os iranianos têm todo o direito de lutar pelo avanço do país na área tecnológica e que os outros países não podem se imiscuir em suas questões internas nesse setor, como em qualquer outro.
O contencioso do Irã com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU, em Viena, já é volumoso. Como o regime dos mulás não atendeu aos reiterados pedidos da Agência para que se submetesse às suas exigências de fiscalização e controle (uma das razões da própria existência da AIEA), foi redigido (pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e pela Alemanha: os chamados Seis) projeto de Resolução relativo à questão.
Foi dentro desse contexto que explodiu o conflito entre Israel e o Hezbollah, a 12 de julho.
O projeto foi aprovado por 14 votos contra 1 (do Catar), resultando na Resolução do Conselho de Segurança da ONU de 31 de julho de 2006.
A Resolução exigiu que o Irã atendesse às determinações da AIEA, suspendesse imediatamente todas as atividades de enriquecimento de urânio e de reprocessamento, incluindo pesquisa e desenvolvimento, e deu-lhe prazo de um mês para cumprí-la, sob pena da "possibilidade" de enfrentar sanções diplomáticas e econômicas.
O Irã recebeu como que um ultimato do Conselho de Segurança, embora em linguagem branda que fala da "possibilidade" de sanções, com prazo até 31 de agosto de 2006, para se curvar ao que foi decidido ou sofrer sanções. Sanções que não foram, contudo, especificadas na Resolução, permanecendo vagas.
Diz que não vai ceder.

Assim estão as coisas no momento em que escrevo.

A conjuntura fica ainda mais complicada porque o presidente do Irã, Ahmadinejad, um engenheiro que assumiu faz um ano (em 03 de agosto de 2005), com maior poder do que os presidentes que o antecederam, é dono de oratória bombástica e incendiária, e de bizarria amedrontadora.
Ele afirma que Israel deve ser varrido do mapa e que o Holocausto não passa de fantasia. É declaradamente anti-semita.
Foi um dos carcereiros dos reféns americanos da crise da década de 1980, na embaixada americana em Teerã.
Apóia abertamente o Hezbollah e endossa, e incentiva, os atos terroristas contra todos que não se submetem ao Islã, como o vê.
Em suma, é um extremista.
Se o regime religioso-fundamentalissta iraniano já era considerado rogue sem Ahmadinejad quanto mais com ele. O Irã, nestas circunstâncias, é como um bully que arremessa seu peso para os lados aleatoriamente, na aparência desprovido de objetivos discerníveis, sem parecer se importar com o bem-estar dos que com ele cruzam.
Pelo exposto, fica claro que para o Ocidente (na verdade para todo o mundo) a posse pelo Irã de armamento nuclear é absolutamente inaceitável, posição reforçada por sua ação, ou omissão, na deflagração do conflito em curso no Oriente Médio.
Em maio deste ano os Seis (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China, os membros permanentes do Conselho de Segurança, mais a Alemanha) propuseram ao Irã negociações sobre seu programa de armas nucleares. Não houve resposta. Daí a Resolução do Conselho de Segurança da ONU de 31 de julho.
É possível que Teerã tenha interpretado o tom quase de súplica da comunicação que lhe foi enviada como um sinal de fraqueza e hesitação. Por outro lado, talvez a violência no Líbano tenha imposto sobriedade aos mulás, levando-os a pensar duas vezes acerca dos riscos de cortejar e detonar crises.
O que quer que tenha acontecido, a sublevação no Oriente Próximo pode se tornar um ponto de virada. O Irã pode vir a avaliar a lei das conseqüências não desejadas. Do seu canto, os Seis não podem mais evitar lidar com os desafios gêmeos que o Irã coloca. De um lado, a busca por armas nucleares representa a ânsia do Irã pela modernidade através do símbolo de poder do Estado moderno; ao mesmo tempo, esta procura é avançada por uma modalidade fervente de extremismo religioso que conservou o Oriente Médio muçulmano atrasado por séculos.
Este enigma só pode ser resolvido sem conflito se o Irã adotar um modernismo consistente com a ordem internacional e uma visão do Islã compatível com a coexistência pacífica.

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